Leitura de História

O Último Papa? A Profecia de São Malaquias e o “Papa Negro”

Aas profecias! Essas misturas de misticismo, história e uma pitada generosa de paranoia. E quando o assunto envolve o Vaticano, com sua tradição milenar de mistérios, conspirações e fumaças brancas, o caldo engrossa! Pois vamos falar — com aquela verve debochada e provocativa que você já conhece — de uma das mais fascinantes e obscuras previsões que já circularam entre os corredores da cristã: a Profecia de São Malaquias.

Trata-se de uma lista, quase um enigma em latim, atribuída a um arcebispo irlandês do século XII, que teria tido uma visão divina com os nomes — ou melhor, os lemas — de todos os papas que governariam a Igreja até o Juízo Final. Sim, você leu certo: todos. Desde Celestino II, eleito em 1143, até um tal de Petrus Romanus, que reinará durante a última tribulação da Santa Igreja. E adivinha quem seria esse? Sim, há quem diga que já estamos lá. Ou quase.

Uma profecia com 400 anos de atraso

Vamos ao ponto: São Malaquias (1094–1148) era um sujeito respeitável, canonizado, claro, e reconhecido por sua intensa vida espiritual. Mas essa suposta lista profética só foi aparecer publicamente em… 1595. Isso mesmo: mais de quatro séculos depois da morte do santo. E foi publicada por um monge beneditino chamado Arnold de Wyon, no livro Lignum Vitae.

Se fosse um trailer de filme, o subtítulo seria: Mistério. Intriga. Uma lista de 112 papas. E o Fim do Mundo como você nunca viu.

A demora na publicação já fez muita gente coçar a cabeça: seria um achado perdido por séculos ou uma invenção engenhosa da virada do século XVI? Os historiadores sérios, claro, tendem à segunda hipótese. Mas os entusiastas do apocalipse preferem outra leitura — afinal, onde há fumaça…

Os 112 lemas: de metáforas a enigmas

A estrutura da profecia é simples e ao mesmo tempo desconcertante. São 112 lemas curtos em latim, cada um supostamente descrevendo, de forma simbólica, um papa (ou antipapa).

Os lemas fazem referências crípticas ao brasão, à origem, ao nome ou a fatos do pontificado. Por exemplo:

  • “De medietate lunae” (“da meia-lua”) é atribuído a João Paulo I, que teve um pontificado brevíssimo — durou apenas 33 dias, como as fases da lua.

  • “De gloria olivae” (“da glória da oliveira”) é vinculado a Bento XVI, embora sem muita clareza.

E então vem o gran finale, o último da lista: “Petrus Romanus”, o Pedro Romano.

“In persecutione extrema S.R.E. sedebit Petrus Romanus, qui pascet oves in multis tribulationibus…”

Tradução: “Durante a última perseguição à Santa Igreja Romana reinará Pedro, o Romano, que alimentará seu rebanho entre muitas tribulações, após as quais a cidade das sete colinas será destruída, e o Juiz Terrível julgará o povo. Fim.”

Fim. Assim mesmo. Curto, grosso, e apocalíptico como manda o figurino.

Mas… e o Papa Negro?

Aí entra o “Efeito Mandela” — aquela sensação coletiva de lembrança falsa. Tem gente jurando que a profecia terminava com a vinda de um “Papa Negro”. Mas atenção: isso não está no texto original.

O termo “Papa Negro” na verdade vem de outra tradição. É o título informal do Superior Geral da Companhia de Jesus, a ordem fundada por Santo Inácio de Loyola. O apelido vem do manto preto e da influência poderosa que esse líder exerce. A coisa ficou ainda mais interessante quando, em 2013, foi eleito o primeiro papa jesuíta da história: Francisco.

Pronto: a sopa de símbolos estava servida. Um jesuíta no trono de Pedro? Só pode ser o tal Papa Negro! Mesmo que isso seja uma leitura popular e não literal.

A internet — essa fábrica de mitos modernos — ajudou a espalhar a ideia de que a profecia de Malaquias terminava com um papa herege, de pele escura, vestido de negro ou até africano. Misturaram Malaquias com Nostradamus, Fátima, João de Jerusalém e outras fontes de profecias apocalípticas.

Resultado? Uma bagunça simbólica com cara de verdade revelada.

Profecias paralelas: mais lenha na fogueira

 

Outras profecias contribuíram para esse caldo simbólico:

  • João de Jerusalém, um cruzado místico do século XII, falava de uma futura Igreja em crise e guerras espirituais.

  • Santa Hildegarda de Bingen teve visões de corrupção e purificação na Igreja — mas nunca nomeou papas.

  • O Terceiro Segredo de Fátima, revelado oficialmente em 2000, fala de um “bispo vestido de branco” sendo morto — o que muitos associam ao papa João Paulo II.

  • São Francisco de Assis teria profetizado um tempo em que a Igreja seria liderada por um papa ilegítimo — embora essa profecia também seja de autenticidade questionável.

  • Dom Bosco, com sua visão das “Duas Colunas”, via o papa guiando a Igreja por entre tempestades, sustentando-se na Eucaristia e em Maria.

Essas vozes criaram um mosaico apocalíptico onde Malaquias é apenas uma das peças. E é exatamente essa sobreposição de símbolos que alimenta a ideia de que o “fim está próximo” — mesmo que isso venha sendo dito há… dois mil anos.

Então… estamos no fim?

Se Bento XVI foi o 111º papa da lista, e Francisco o sucessor, então… sim, segundo a contagem tradicional, Francisco seria o 112º papa, o tal que reina durante a tribulação. Mas há um problema: o lema “Petrus Romanus” não menciona nomes, datas ou títulos claros. Ele pode ser simbólico, pode nem se referir a Francisco ou — como dizem os céticos — pode nem sequer ser uma profecia real.

A verdade é que a profecia de São Malaquias continua sendo um objeto de fascínio. Uns a veem como uma peça histórica de ficção devocional; outros, como uma revelação velada do futuro da Igreja.

Mas, no fim das contas, o que essa profecia realmente oferece é um espelho — ela reflete mais os medos e esperanças de quem a lê do que previsões objetivas. E como toda boa lenda medieval, o que importa mesmo não é se ela é real… mas o que as pessoas fazem com ela.

Referências bibliográficas:

  • Wyon, Arnold de. Lignum Vitae, 1595.

  • Woodward, Kenneth L. Making Saints: How the Catholic Church Determines Who Becomes a Saint, Who Doesn’t, and Why, Simon & Schuster, 1996.

  • Martin, Malachi. The Keys of This Blood, Simon & Schuster, 1990.

  • McGinn, Bernard. Visions of the End: Apocalyptic Traditions in the Middle Ages, Columbia University Press, 1998.

  • Vatican.va – Documentos sobre o Terceiro Segredo de Fátima.