Leitura de História

Frank McLaury: Entre a Lei e o Mito do Velho Oeste

McLaurys Get the Short End of the Stick - True West MagazinePoucos episódios na história do Velho Oeste americano evocam tanta controvérsia, mito e polarização quanto o famoso tiroteio no O.K. Corral. Um dos nomes envolvidos nessa narrativa sangrenta é o de Frank McLaury, nascido Robert Findley McLaury, em 3 de março de 1849. Sua trajetória, marcada por migrações familiares, guerras, acusações de crime e amizade com os notórios Clantons, revela a complexidade moral e histórica que caracteriza o período de expansão americana rumo ao Oeste.

Como tantos homens de seu tempo, Frank nasceu em um contexto de transformação nacional. Natural de Kortright, Nova York, era filho de Margaret Rowland e Robert Houston McLaury, este último descendente de imigrantes irlandeses. Ainda criança, em 1855, viu sua família mudar-se para o estado de Iowa, em busca de melhores oportunidades na agricultura. O pai, além de agricultor, exercia a profissão de advogado. As intempéries da época, no entanto, não pouparam os McLaury: a mãe de Frank morreu em uma epidemia de febre tifóide em 1859, quando ele tinha apenas 10 anos.

Essa vivência precoce com a mortalidade e a instabilidade ajudou a moldar o espírito de Frank. Aos 13 anos, ele vivia em uma casa movimentada: além dos irmãos biológicos, passou a conviver com os filhos da segunda esposa de seu pai, Jane Arbuthnot. Em meio a essas mudanças, crescia um senso de resiliência típico da fronteira, onde a vida frequentemente se equilibrava entre a esperança e a tragédia.

Durante a Guerra Civil, Frank viu o impacto direto do conflito em sua família. Seu irmão Edwin, soldado da União, foi capturado em combate, sobreviveu ao cativeiro, mas morreu em decorrência das doenças contraídas na prisão. A perda marcou profundamente os McLaury, que, como tantas outras famílias, sentiram o peso do conflito nacional não apenas nas manchetes, mas nas lápides.

Após a guerra, a família se instalou em Buchanan County, Iowa, onde os irmãos ajudavam na fazenda do pai. Contudo, a busca por novas oportunidades levou Frank e seu irmão Tom para o sudoeste dos Estados Unidos. Em 1878, chegaram a Fort Worth, Texas, onde seu irmão mais velho Will McLaury já havia se estabelecido como advogado e, futuramente, se tornaria juiz. A mudança representava mais do que uma transição geográfica: simbolizava a migração de um ideal de vida estável para o dinamismo perigoso do Oeste.

Adotando o nome Frank — uma simplificação moderna de “Findley” — ele e Tom aventuraram-se em campanhas de gado e logo se instalaram no Arizona, mais precisamente na região de Hereford. Lá, associaram-se a Ike Clanton e à poderosa operação de gado dos Clantons. Rapidamente os McLaury se tornaram peças influentes no circuito de gado que, não raramente, envolvia atividades ilegais como o roubo e reetiquetagem de animais mexicanos.

O suposto rancho que Frank e Tom afirmavam possuir era, segundo alguns relatos, propriedade de Frank Patterson, o que lança dúvidas sobre a legitimidade de suas posses. Ainda assim, os irmãos prosperaram, compraram terras em Soldiers Hole, construíram uma casa e se envolveram cada vez mais nos negócios — lícitos ou não — dos cowboys locais.

Nesse mesmo período, Tombstone começava a florescer como cidade próspera devido à descoberta de prata. Com isso, veio também o aumento da criminalidade e o surgimento de figuras que viriam a se tornar lendárias, como os irmãos Earp e Doc Holliday. A tensão entre os chamados “Cowboys”, como os McLaury e os Clantons, e os representantes da lei, como os Earps, era inevitável.

Em julho de 1880, um episódio emblemático marcou a crescente desconfiança mútua. Mulas do Exército dos EUA foram roubadas, e a investigação levou diretamente ao rancho dos McLaury. As marcas do governo haviam sido adulteradas, e Frank foi acusado de ocultar os animais. Embora as mulas nunca tenham sido devolvidas, a denúncia pública feita pelo capitão Hurst e reproduzida na imprensa local gerou uma reação furiosa de Frank, que publicou uma resposta indignada e ofensiva no jornal Nugget, aliado dos Cowboys. O conflito deixava de ser apenas criminal e assumia contornos políticos e ideológicos.

Outro incidente que inflamou as tensões ocorreu em novembro de 1879, quando um cavalo de Wyatt Earp foi roubado e posteriormente localizado na posse dos Clantons. O episódio foi resolvido sem violência, mas demonstrou a crescente animosidade entre os grupos. Os McLaury, embora não diretamente envolvidos nesse roubo, estavam cada vez mais associados aos Clantons, cujas atitudes provocativas apenas aumentavam o atrito com os representantes da lei.17 fotos e imagens de alta resolução de Frank Mclaury - Getty Images

No início de 1881, os McLaury transferiram sua base de operações para o Vale de Sulphur Springs, onde expandiram suas atividades agrícolas. Possuíam mais de 140 cabeças de gado, dois mulas e uma fazenda de adobe bem estruturada. Planejavam inclusive uma visita à irmã em Iowa, que iria se casar no fim daquele ano. Essa informação traz um contraste revelador: por trás da imagem do cowboy fora-da-lei, havia um homem com laços familiares e planos cotidianos.

Contudo, o destino interveio antes da viagem. Em 26 de outubro de 1881, os irmãos McLaury estavam em Tombstone, supostamente para concluir uma venda de gado. Naquela manhã, após uma série de trocas verbais acaloradas e ameaças entre os Cowboys e os Earps, culminou-se o inevitável: o tiroteio no O.K. Corral. Em menos de 30 segundos, 30 tiros foram disparados. Quando a poeira baixou, Frank e Tom McLaury, bem como Billy Clanton, estavam mortos.

A versão oficial afirmava que os Earps agiram em legítima defesa. No entanto, como ocorre frequentemente na história, os fatos não se encerram com a morte. O irmão mais velho, Will McLaury, gastou grande parte de suas finanças em processos contra os Earps e Doc Holliday, tentando provar que os irmãos haviam sido assassinados a sangue frio. O caso dividiu Tombstone — e a memória americana — entre heróis da lei e vítimas da brutalidade legalista.

O legado de Frank McLaury permanece ambíguo. Teria sido um fora-da-lei, ou um fazendeiro envolvido em disputas políticas travestidas de justiça? Talvez ambos. O Velho Oeste era, afinal, uma terra onde a fronteira entre o legal e o ilegal, o justo e o arbitrário, era tão tênue quanto a poeira que pairava sobre suas estradas.