Quando se fala em Velho Oeste, evoca-se mais do que poeira, saloons e duelos ao pôr do sol. Evoca-se um tempo fundado no mito, na reinvenção de narrativas e na figura do fora-da-lei como símbolo cultural. Um dos nomes que mais exemplificam esse fenômeno é o de William H. Bonney, mais conhecido como Billy the Kid. Para além da aura de pistoleiro implacável que os filmes e baladas conferiram ao jovem, esconde-se um indivíduo marcado por orfandade, abandono, violência institucional e, acima de tudo, por um contexto social em ebulição. O que se apresenta aqui não é apenas um relato biográfico: é uma tentativa de compreender a intersecção entre fato e ficção, entre história e mitologia, que construiu o nome de Billy como ícone do imaginário americano.
Juventude marcada pela desintegração familiar
Nascido, ao que tudo indica, em 23 de novembro de 1859, em Manhattan, Nova Iorque, com o nome de Henry McCarty, Billy teve uma infância interrompida por lutos sucessivos. A morte prematura do pai e, mais tarde, da mãe, vítima de tuberculose, o condenaram desde cedo a uma existência errante. Seu caminho, como o de tantos órfãos no século XIX americano, se entrelaçou com a marginalidade não por vocação, mas por ausência de alternativa. Desde muito jovem, envolveu-se em pequenos delitos. Um roubo de roupas com um amigo o levou à cadeia ainda adolescente. Fugiu. E, ao fugir, iniciou uma trajetória que os jornais, com seu apetite sensacionalista, transformariam em épico.
O Novo México e a Guerra de Lincoln: o nascimento do mito
Ao se estabelecer no Novo México, Billy tornou-se peça involuntária em um conflito de grande escala: a Guerra do Condado de Lincoln. Nessa disputa, dois grupos comerciais travavam uma batalha violenta pelo controle econômico e político da região. Billy, empregado de John Tunstall, um rancheiro britânico, viu-se no centro da tensão quando seu patrão foi assassinado. Tunstall havia oferecido a Billy o que poucos haviam lhe dado até então: dignidade. Deu-lhe um cavalo, roupas novas e uma arma. Mais que objetos, esses eram símbolos de inclusão.
Quando Tunstall morreu, Billy se uniu aos Reguladores de Lincoln, um grupo que buscava justiça — ou vingança. A linha entre ambos, como a própria história nos ensina, é frequentemente turva. Sob a liderança de Richard Brewer, os Reguladores executaram emboscadas e eliminaram vários homens ligados ao assassinato de Tunstall, incluindo o xerife William Brady. O episódio é emblemático: o agente da lei, instrumento do Estado, era também o braço armado de interesses escusos. Billy e seus companheiros, antes defensores da ordem legal, tornaram-se oficialmente “foras-da-lei” após o governador Axtell revogar seus mandados.
Sobreviver fora da lei
Com o fim da Guerra de Lincoln, Billy poderia ter desaparecido nas sombras da história. Mas a perseguição legal, a ausência de anistia prometida pelo governador Lew Wallace e o prazer quase mítico que os jornais encontravam em sua figura mantiveram o jovem vivo na imaginação popular. Assumindo o nome de William H. Bonney, fundou uma gangue e passou a praticar furtos de gado, enquanto mantinha uma relação ambígua com as autoridades: ora inimigo, ora informante, ora peça-chave em acertos políticos.
No entanto, o mito de que Billy matou 21 homens — um para cada ano de vida — é historicamente insustentável. Registros confiáveis falam em no máximo quatro mortes diretamente atribuídas a ele. O número vinte e um, porém, tem valor simbólico. Remete ao ciclo completo da juventude, à plenitude interrompida da vida e à representação arquetípica do rebelde que morre cedo demais para envelhecer.
O fim e o renascimento pós-morte
A história oficial encerra-se em 14 de julho de 1881, quando o xerife Pat Garrett, ex-aliado, emboscou e matou Billy em Fort Sumner. A cena é cinematográfica: um quarto escuro, um diálogo breve em espanhol — “¿Quién es?” — e dois disparos. Billy morreu com cerca de 21 anos, selando seu destino e consolidando sua lenda. No entanto, como todo mito poderoso, sua morte não representou o fim.
Décadas mais tarde, surgiria Brushy Bill Roberts, um velho texano que afirmava ser Billy the Kid, sobrevivente de uma conspiração. A teoria, embora romantizada, foi descartada por historiadores renomados. Mas a própria insistência na hipótese diz mais sobre a nossa necessidade de heróis trágicos do que sobre a veracidade dos fatos.
Billy the Kid na cultura popular
A imagem de Billy foi absorvida e reciclada pela cultura americana de múltiplas formas. No cinema, em obras como Young Guns, Pat Garrett and Billy the Kid (com trilha sonora de Bob Dylan), The Left-Handed Gun e Old Henry, Billy aparece como símbolo da juventude rebelde e da justiça à margem do sistema. Na música, nomes como Billy Joel, Jon Bon Jovi, Marty Robbins e Charlie Daniels o celebraram como ícone de liberdade e desafio. Até mesmo compositores eruditos como Aaron Copland dedicaram-lhe uma suíte sinfônica.
Sua figura transcendeu fronteiras nacionais: até bandas portuguesas e espanholas o homenagearam. É como se Billy representasse uma verdade que ultrapassa as fronteiras da história factual: o desejo de insurreição frente a sistemas corruptos, o anseio de dignidade numa sociedade desigual e a atração pelo risco como forma de afirmação existencial.
Billy the Kid é, antes de tudo, uma construção. Como ensina a historiografia moderna, o passado não é um lugar fixo, mas um campo em disputa. Billy foi, sim, um jovem órfão, com inclinações para o crime, inserido em um contexto de violência institucionalizada. Mas foi também, e sobretudo, o produto de uma sociedade que precisava de heróis — ou de bandidos com aura de heroísmo.
Por isso, compreender Billy é compreender a América do século XIX, seus paradoxos e tensões, suas promessas e suas fraturas. No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja se ele matou vinte e um homens ou se morreu mesmo em 1881. A pergunta mais inquietante é: por que ainda queremos acreditar que ele vive?