Na vastidão árida do Velho Oeste americano, entre poeiras vermelhas, espingardas de repetição e lendas que atravessaram os séculos, poucas histórias são tão emblemáticas quanto a de Pat Garrett — homem que, envolto em mitos e contradições, inscreveu seu nome na história ao matar um dos mais notórios foras-da-lei do século XIX: Billy the Kid.
Patrick Floyd Jarvis Garrett, nascido em 5 de junho de 1850 no Condado de Chambers, Louisiana, foi o primogênito de John Lumpkin Garrett e Elizabeth Ann. O cenário em que veio ao mundo era aquele do Sul profundo, marcado por grandes plantações e, inevitavelmente, pela escravidão. Seu pai era um fazendeiro próspero, dono de vastas terras dedicadas ao algodão, cuja produção simbolizava não apenas riqueza, mas também a fragilidade de um sistema econômico prestes a ruir.
Com o fim da Guerra Civil Americana, o cenário mudou abruptamente. A vitória da União resultou não apenas no fim da escravidão, mas também na derrocada de inúmeras fortunas sulistas. A plantação dos Garrett foi confiscada, e a família, antes abastada, mergulhou em dificuldades financeiras. A tragédia familiar logo se abateria com força: sua mãe faleceu em 1867, seguida pelo pai no ano seguinte. É nesse contexto de perda e instabilidade que começa a se forjar a figura solitária e resiliente de Pat Garrett.
Diz-se — ainda que sem provas documentais — que, em sua juventude, Garrett teria matado um simpatizante nortista próximo ao fórum local. Essa versão, embora contestada, é sintomática da atmosfera de tensão que dominava o Sul pós-Guerra Civil: uma terra marcada por ressentimentos, revanchismos e uma justiça muitas vezes feita à bala.
Deslocado e em busca de sobrevivência, Garrett mudou-se para o Texas, território de oportunidades e perigos. Lá, trabalhou como guia e caçador de búfalos, atividade que já indicava sua familiaridade com as armas e com a dureza da vida nas fronteiras. Em 1875, envolveu-se em um episódio nebuloso: matou Joe Bristoe, um jovem comerciante, por motivos jamais esclarecidos. O Velho Oeste, nesse período, era um palco em que o Código de Hamurábi parecia reger as relações sociais: olho por olho, tiro por tiro.
No final da década de 1870, Garrett estabeleceu-se em Fort Sumner, Novo México. Trabalhou como barman no saloon de Beaver Smith — espaço em que as fronteiras entre o legal e o ilegal se confundiam ao sabor do uísque e do pó das botas. Seu primeiro casamento, com Juanita Martinez, terminou tragicamente com a morte precoce da esposa. Em 1880, casou-se novamente, desta vez com Apolonaria Gutierres, com quem teria oito filhos — um dado que nos humaniza o xerife e nos lembra que, apesar de sua fama armada, havia nele também o homem de família.
No mesmo ano de seu segundo casamento, Garrett foi eleito xerife do Condado de Lincoln. Era uma função de risco, mas também de prestígio em uma terra onde a autoridade era frequentemente testada pela pólvora. Coube-lhe uma missão que se tornaria lendária: capturar — ou matar — Billy the Kid, jovem carismático e perigoso, cuja fama já extrapolava as fronteiras do Novo México.
A caçada foi longa e marcada por confrontos sangrentos. Garrett e seus delegados mataram dois dos principais aliados de Billy: Charlie Bowdre e Tom O’Folliard. Finalmente, na noite de 14 de julho de 1881, o desfecho se deu em Fort Sumner. Garrett, sabendo que Billy poderia estar na casa de Peter Maxwell, aproximou-se sorrateiramente do local. Ao ser surpreendido por Billy, que perguntou “¿Quién es?” ao perceber uma silhueta no escuro, Garrett respondeu com tiros. Um deles atingiu o peito do fora-da-lei, matando-o quase instantaneamente.
A morte de Billy the Kid rendeu a Garrett tanto a glória quanto a desconfiança. Ainda em 1881, publicou com a ajuda de Ash Upson o livro The Authentic Life of Billy the Kid, uma tentativa de legitimar sua versão dos fatos. Contudo, a aura romântica de Billy — visto por muitos como um rebelde contra a opressão — contrastava com a figura mais rígida de Garrett. Esse contraste gerou ambivalência em sua reputação: herói para uns, traidor para outros.
Após o episódio, a vida de Garrett seguiu de forma errática. Mudou-se para Roswell e, mais tarde, para o Texas. Em 1896, foi eleito xerife do Condado de Doña Ana. Participou de conflitos armados, como o tiroteio que vitimou Norman Newman, conhecido como Billy Reed, próximo à Passagem de Santo Agostinho. Também foi nomeado agente alfandegário em El Paso — um reconhecimento oficial de sua trajetória, mas que não bastou para consolidar sua segurança pessoal e econômica.
Os últimos anos de Pat Garrett foram marcados por crescentes dificuldades financeiras e desentendimentos com figuras locais. Em 29 de fevereiro de 1908, enquanto viajava para Las Cruces ao lado de Carl Adamson e Jesse Wayne Brazel, foi morto a tiros em circunstâncias ainda nebulosas. Brazel confessou o crime, mas as dúvidas persistem até hoje. O Velho Oeste, afinal, raramente oferece certezas — apenas versões e balas.
A figura de Garrett permanece viva na cultura popular. Em 1973, James Coburn o interpretou no filme Pat Garrett and Billy the Kid, dirigido por Sam Peckinpah, cuja trilha sonora de Bob Dylan — incluindo a icônica “Knockin’ on Heaven’s Door” — eternizou o duelo em tons melancólicos. Nos filmes Young Guns e Young Guns II, Pat Garrett também ganha vida na pele de Patrick Wayne e William Petersen, respectivamente. E até mesmo Jon Bon Jovi compôs a canção “Blood Money”, retratando Garrett pela ótica de um suposto Billy the Kid ressentido com a traição de um antigo amigo.
A história de Pat Garrett é a de um homem que encarnou a complexidade moral do Velho Oeste: um tempo em que a lei era flexível, a honra discutível e a justiça, muitas vezes, uma questão de oportunidade. Ele não foi apenas o matador de Billy the Kid, mas também um símbolo do fim de uma era: a transição de uma terra de mitos para uma nação de instituições.