Se o Velho Oeste fosse uma telenovela mexicana cheia de bigodes, poeira e tiros ao pôr do sol — e, convenhamos, era quase isso mesmo — então Billy Clanton seria aquele personagem que entra na trama para morrer dramaticamente no meio do segundo ato, deixando os protagonistas ainda mais neuróticos e os antagonistas com cara de “não era bem isso que eu queria”.
Billy Clanton, ou William Harrison Clanton — pra parecer mais respeitável do que realmente era — nasceu em 1862 no Texas, mas foi no Arizona que sua história terminou, no lendário tiroteio do OK Corral, em Tombstone, em 26 de outubro de 1881. Um nome que parece ter saído de um gibi de faroeste? Sim. Uma vida à altura do nome? Nem tanto. Billy era o caçula da notória família Clanton, espécie de núcleo rural e rebelde da tensa novela sociopolítica que se desenrolava entre cowboys e lawmen no Velho Oeste americano.
E aqui vale uma pausa dramática — com direito a trilha de gaita triste — pra explicar o contexto. Tombstone, Arizona, década de 1880: uma cidade mineradora que crescia mais rápido do que a capacidade de manter alguma ordem. Era ouro? Não, era prata. E onde há prata, há ganância. E onde há ganância, há conflito. Os Clanton — incluindo Billy, seu pai Newman Haynes Clanton (o “Old Man Clanton”) e seu irmão Ike — eram vistos como “cowboys” no pior sentido possível da palavra. Não os heróis romantizados dos filmes de John Wayne, mas os fora-da-lei que roubavam gado do México, traficavam bebidas e tinham um relacionamento, digamos, fluido com a legalidade.
Billy, o mais novo e talvez o mais impulsivo, estava presente naquele que virou o tiroteio mais famoso da história americana. O duelo em frente ao OK Corral é tão emblemático que já foi retratado em dezenas de filmes, livros, séries e até música country de gosto duvidoso. Mas, ao contrário do que o nome sugere, o tiroteio não aconteceu exatamente dentro do curral. Foi num terreno baldio ao lado, porque o faroeste também tinha seus caprichos geográficos.
Na manhã do tiroteio, Billy Clanton e os irmãos McLaury (Tom e Frank) estavam armados e irritados. De outro lado, os irmãos Earp (Wyatt, Virgil e Morgan) e o icônico Doc Holliday, o tuberculoso mais mortal da história do Arizona, decidiram que era hora de impor a ordem — ou, mais precisamente, de resolver as tretas pessoais acumuladas. O resultado foi um tiroteio de 30 segundos que deixou Billy e os McLaury mortos, Doc ferido e a reputação dos Earp consolidada como lendas da justiça, mesmo que a justiça ali fosse mais nebulosa que nevoeiro em Londres.
Billy foi baleado várias vezes, mas dizem que lutou até o fim. Morreu com 19 anos, jovem demais para ter virado mito por conta própria, velho o bastante para ter virado símbolo de uma época. Seu irmão Ike, que sobreviveu porque — olha a ironia — correu no meio da confusão, passou anos tentando limpar o nome dos Clanton, mas a história oficial, aquela contada pelos vencedores (e por Hollywood), não deixou muito espaço para isso.
O mais intrigante é que Billy Clanton, apesar de sua morte cinematográfica, não teve tempo de construir um legado à altura do impacto de sua última cena. Ele virou personagem coadjuvante da história dos outros. E isso é o que o torna tão fascinante. Porque enquanto Wyatt Earp virou tema de biografias, filmes com Kevin Costner e fantasias de Halloween, Billy virou um rosto congelado numa fotografia post-mortem, deitado ao lado dos irmãos McLaury, com o chapéu ainda na cabeça e o revólver por perto — como manda o figurino do faroeste trágico.
Seu túmulo ainda pode ser visitado no cemitério Boot Hill, em Tombstone. Um nome bem apropriado, diga-se de passagem. Lá, entre cactos e placas meio tortas, turistas tiram selfies ao lado da lápide de um jovem que morreu por uma disputa que ninguém mais entende direito. Billy Clanton virou símbolo de uma juventude perdida numa terra onde a bala resolvia tudo, menos os dilemas reais.
Então, ao final das contas, Billy Clanton foi vítima do contexto, do sobrenome, da cultura da violência e de uma bala bem direcionada. Talvez, se tivesse vivido mais, se tivesse tempo de escrever suas memórias, de virar político ou bandido de maior porte, hoje teríamos um Billy mais complexo. Mas não. Morreu cedo, virou mártir, vilão, figurante e ícone, tudo ao mesmo tempo.
E o faroeste, como sempre, seguiu cavalgando.
Referências Bibliográficas:
- Tefertiller, Casey. Wyatt Earp: The Life Behind the Legend. Wiley, 1999.
- Barra, Allen. Inventing Wyatt Earp: His Life and Many Legends. Bison Books, 2000.
- Marks, Paula Mitchell. And Die in the West: The Story of the O.K. Corral Gunfight. University of Oklahoma Press, 1990.
Brand, Richard. Tombstone: The Earp Brothers, Doc Holliday, and the Vendetta Ride. University of Arizona Press, 2009.