Leitura de História

Tom McLaury: o cowboy que morreu por um mal-entendido

Tom McLaury - WikipediaSe o Velho Oeste fosse um grande teatro de absurdos — e, sejamos sinceros, ele era — então Tom McLaury seria o personagem que entra achando que vai participar de uma discussão civilizada e sai carregado, perfurado por balas, sem ter entendido direito o que aconteceu. Trágico? Sim. Cômico? De certa forma. Totalmente típico do Arizona de 1881? Com certeza.

Tom McLaury nasceu em 1853, no condado de Meredith, estado de Nova York — o que já é uma ironia por si só, porque nada grita “cowboy durão do deserto” como ser nascido em uma fazendinha pacata no nordeste dos EUA. Mas, como todo bom personagem do Oeste americano, ele migrou para o sudoeste em busca de oportunidades. E o que encontrou? Poeira, disputas territoriais, corrupção policial e tiroteios por desentendimentos mal resolvidos. Uma maravilha!

Ao lado do irmão Frank McLaury, Tom se estabeleceu em Tombstone, Arizona, onde se envolveu com o rancho de gado, atividades comerciais um tanto nebulosas e — claro — com os Clanton. Sim, os Clanton de Ike e Billy, os desordeiros favoritos do western revisionista. Os McLaury eram, assim como os Clanton, parte do grupo de cowboys acusados de roubo de gado, tráfico de armas e toda sorte de atividades que ficavam na nebulosa fronteira entre o ilegal e o “todo mundo faz, então tá valendo”.

Agora, vamos ao coração da tragédia: o tiroteio no OK Corral. Ou melhor, o tiroteio “próximo ao OK Corral”, porque a precisão histórica, no Velho Oeste, é sempre uma vítima colateral. No dia 26 de outubro de 1881, os irmãos McLaury, os Clanton e os irmãos Earp (Wyatt, Virgil e Morgan), junto com o afiado e tuberculoso Doc Holliday, estavam à beira de um colapso. O clima era de tensão, ameaças haviam sido trocadas, armas estavam à mostra — mas Tom, segundo algumas testemunhas, não estava armado.

E é aqui que entra o detalhe mais amargo da história de Tom McLaury: ele teria ido até a cidade sem carregar armas. Alguns dizem que ele estava desarmado por escolha; outros, que havia deixado suas pistolas na estalagem. Seja como for, ele acabou levando um tiro mortal no abdômen, disparado por Doc Holliday, e morreu em questão de minutos. Morrera como cowboy, mas sem poder sacar o revólver. Que ironia amarga.

É claro que os Earp justificaram os tiros dizendo que os McLaury e os Clanton estavam prontos para matar. Já os defensores dos cowboys argumentaram que Tom foi assassinado, puro e simples. A verdade, como sempre, morreu junto com os envolvidos ou foi enterrada sob pilhas de versões conflitantes.

Mas o fato é: Tom McLaury, aos 28 anos, entrou para a história não por seus feitos, mas por sua morte. Ele se tornou parte do mito do OK Corral — um evento que durou menos de um minuto, mas que já foi eternizado em livros, filmes e séries que misturam tanto ficção quanto um bom punhado de invencionices. Hollywood adora um bandido romântico ou um xerife incorruptível, mas raramente lida bem com a complexidade cinzenta dos personagens reais. E Tom, com sua morte possivelmente injusta, foi tragado por esse furacão narrativo.

Seu corpo foi enterrado no famoso Boot Hill Cemetery, ao lado do irmão Frank e de Billy Clanton. Lá estão os três, eternizados como vítimas de uma era em que a lei era escrita à bala e a justiça era decidida com um coldre na cintura. Turistas tiram fotos, guias contam versões altamente dramatizadas dos eventos e poucos se lembram de perguntar: o que realmente Tom McLaury fez para merecer morrer?

Talvez nada. Talvez tudo. Ou talvez apenas estar no lugar errado, na hora errada, com o sobrenome errado e ao lado das pessoas erradas. No Velho Oeste, isso bastava.


 

Referências Bibliográficas:

  • Marks, Paula Mitchell. And Die in the West: The Story of the O.K. Corral Gunfight. University of Oklahoma Press, 1990.

  • Tefertiller, Casey. Wyatt Earp: The Life Behind the Legend. Wiley, 1999.

  • Barra, Allen. Inventing Wyatt Earp: His Life and Many Legends. Bison Books, 2000.

  • Ball, Larry D. Tomstone: A History. University of New Mexico Press, 2004.