Leitura de História

Jane Calamidade: a pistoleira que virou mito ambulante

Se o Velho Oeste fosse uma telenovela escrita por Mark Twain em parceria com um roteirista de faroeste spaghetti, Martha Jane Canary — conhecida mundialmente como Calamity Jane — seria aquela personagem que entra na trama cavalgando um cavalo bêbado, cuspindo tabaco e declamando Whitman com voz rouca. Uma lenda? Claro. Uma farsa? Talvez. Uma mulher absolutamente fascinante? Sem sombra de dúvida.

Nascida em 1852, no Missouri — aquele mesmo que produziu mais mártires do que whisky —, Jane começou cedo a se meter em encrenca. Ainda adolescente, com a família devastada por tragédias e dívidas, ela fez o que qualquer alma inquieta faria no século XIX: pegou a estrada. Ou melhor, os trilhos, as caravanas e o que mais houvesse para ir parar onde o mundo estava em ebulição — o Oeste. Lá, ela virou tudo ao mesmo tempo: lavadeira, cozinheira, enfermeira, exploradora, batedora do Exército, bêbada profissional, e, claro, atiradora de primeira.

E é aí que começa a mágica — ou a mitomania. Porque tudo que envolve Calamity Jane parece ter sido escrito por um cronista com delírios épicos. Ela mesma, em suas cartas e autobiografia (que é um tratado de exageros deliciosos), dizia que salvou dezenas de soldados na Guerra Indígena, cruzou desertos levando água na sela e trocou tiros com metade dos bandidos do oeste. Verdade? Em partes. Mas quem se importa?

O que se sabe com alguma certeza é que ela era destemida, durona, vestia-se como homem (em tempos que isso era uma heresia social) e vivia à margem de qualquer padrão. Em Deadwood — aquele ninho de degenerados, mineradores e trapaceiros — ela fez história. Foi lá que conheceu, segundo as crônicas populares (e muito provavelmente alimentadas por ela mesma), o lendário James Butler Hickok, o Wild Bill. Dizem que foi amor à primeira bala. Ou, pelo menos, uma obsessão unilateral. Ela afirmava que eram amantes inseparáveis. Ele, infelizmente, morreu antes de confirmar ou negar.

Após a morte de Wild Bill em 1876, Jane passou a carregar seu nome como uma medalha de dor. Disse que o vingou, que o amou, que cuidou de seu túmulo com devoção. Há quem diga que isso é tão romântico quanto falso. Mas aí está a beleza da coisa: o Velho Oeste era tão sedento por mitos que aceitava qualquer um que tivesse coragem de vivê-los — ou de fingir com convicção.

Mais tarde, ela virou atração de circo. Sim, como uma versão feminina do Buffalo Bill, Calamity Jane integrou os shows de vaudeville, se apresentando para plateias que não ligavam muito para a veracidade, contanto que houvesse fumaça de pólvora e histórias cabeludas. Mas a velhice, como para tantos outros mitos do Oeste, veio implacável. Pobrezinha, com saúde frágil e mais álcool que glóbulos vermelhos na corrente sanguínea, ela acabou seus dias como uma sombra de si mesma. Morreu em 1903, aos 51 anos, e — veja só o destino com senso de humor — foi enterrada ao lado de Wild Bill, mesmo que ele talvez não tivesse pedido por isso.

Calamity Jane virou símbolo de tudo aquilo que o Velho Oeste prometia: liberdade, loucura, transgressão e uma pitada generosa de mentira poética. Uma mulher que viveu como quis, que exagerou como poucos e que, contra todas as estatísticas, entrou para a história não como coadjuvante de um homem famoso, mas como protagonista de sua própria balbúrdia.

Jane Calamidade – Wikipédia, a enciclopédia livre

Referências Bibliográficas:

  • James D. McLaird. Calamity Jane: The Woman and the Legend. University of Oklahoma Press, 2005.

  • Richard W. Etulain. The Life and Legends of Calamity Jane. University of Oklahoma Press, 2014.

  • Doris Faber. Calamity Jane: Her Life and Her Legend. Houghton Mifflin, 1992.

  • Dee Brown. The American West. Simon & Schuster, 1994.

  • Jeffrey Wallace. Deadwood: Legends of the Wild West. History Press, 2011.