Leitura de História

Butch Cassidy: o fora da lei mais simpático do Oeste

Se existisse um Oscar para o bandido mais carismático do Velho Oeste, ele iria para Butch Cassidy, nome de guerra de Robert LeRoy Parker — um mormon rebelde que trocou o Livro de Mórmon pela pólvora, o pasto pelo assalto e a santidade pela lenda. E que lenda! Estamos falando do líder da famosa Wild Bunch, uma gangue tão bem organizada que, hoje, talvez gerenciasse um banco — em vez de assaltá-lo.

Nascido em 1866, em Beaver, Utah, Butch era filho de imigrantes mórmons. Sim, meus caros, um fora da lei com formação religiosa — como se já não bastasse o paradoxo do cowboy bandido com cara de professor universitário. Desde jovem, Cassidy demonstrou um certo desprezo pelas convenções. Começou a carreira criminal de leve, roubando cavalos, o que era quase um esporte nacional no Velho Oeste. Mas logo percebeu que era bem mais lucrativo — e divertido — roubar trens e bancos.

E aqui entra um detalhe delicioso: Butch odiava violência. Ele preferia assaltar sem disparar um tiro. Era um criminoso ético, digamos assim — quase um gentleman do crime. Um tipo que, se existisse hoje, roubaria Wall Street de terno e ainda deixaria uma carta de agradecimento. Ele não matava por prazer, evitava tiroteios e, por incrível que pareça, era respeitado por muitos dos que ele assaltava. Vai entender…

A quadrilha que comandava, a Wild Bunch, era composta por nomes tão folclóricos quanto ele: Sundance Kid, Kid Curry, Elzy Lay, entre outros. Eles formavam o primeiro “banco itinerante de retirada forçada de valores” do Velho Oeste. Eram rápidos, meticulosos, astutos e, sobretudo, eficazes. Entre 1896 e 1901, a gangue assaltou pelo menos uma dúzia de bancos e trens. Sempre em movimento, sempre um passo à frente da lei.

Mas a festa não dura pra sempre.

Com os Pinkertons — sim, os famosos detetives — no seu encalço, Cassidy e Sundance decidiram tentar a sorte fora dos EUA. E aí vem a parte cinematográfica da história: foram para a América do Sul! Isso mesmo! Os dois bandidos embarcaram para a Bolívia com a companheira de Sundance, Etta Place, com a ideia de viver uma vida “honesta” como pecuaristas. Mas, evidentemente, bandidos aposentados tendem a cair de volta no velho vício do assalto. E foi o que aconteceu.

Em 1908, após um tiroteio com soldados bolivianos em San Vicente, os dois teriam sido mortos. Teriam. Porque, como em toda boa lenda do Velho Oeste, o fim de Butch Cassidy é envolto em mistério, neblina e teorias conspiratórias. Há quem jure que ele sobreviveu, voltou aos EUA e viveu até os anos 1930 com outro nome. Há até quem diga que ele virou banqueiro. Irônico? Muito.

Butch Cassidy – Wikipédia, a enciclopédia livreMas o fato é que Butch Cassidy virou mito. Graças, em parte, ao cinema. O filme Butch Cassidy and the Sundance Kid (1969), com Paul Newman e Robert Redford, transformou o fora da lei em pop star. A partir dali, ele passou a ser lembrado não como criminoso, mas como uma espécie de anti-herói libertário, contestador, elegante — um rebelde com causa, charme e senso de humor.

Cassidy personifica aquele espírito indomável do Oeste americano, onde a moralidade era flexível e a lei era apenas mais uma convenção a ser contornada com estilo. Mais do que um assaltante, ele foi um símbolo: de liberdade, de rebeldia e, acima de tudo, de uma vida vivida no limite — com coragem, astúcia e sem jamais pedir desculpas.

 

Referências Bibliográficas:

  • Richard Patterson. Butch Cassidy: A Biography. University of Nebraska Press, 1998.

  • Charles Leerhsen. Butch Cassidy: The True Story of an American Outlaw. Simon & Schuster, 2020.

  • Thom Hatch. The Last Outlaws: The Lives and Legends of Butch Cassidy and the Sundance Kid. Dutton Caliber, 2013.

  • William W. Johnstone. Butch Cassidy: The Lost Years. Pinnacle, 2005.

  • Bruce Chatwin. In Patagonia. Penguin, 1977 (relata histórias da passagem dos bandidos na América do Sul).