Leitura de História

Charlie Utter: o dândi fiel do Velho Oeste selvagem

Se Jesse James era o fora da lei popstar, e Wild Bill Hickok o pistoleiro galã do oeste, Charlie Utter era o que todo faroeste precisa para funcionar: o sujeito excêntrico, leal, meio misterioso, e que segura a onda quando os heróis caem. Barbeiro, caçador, empreendedor, farmacêutico de ocasião e entregador de correspondência — isso mesmo, um carteiro armado até os dentes.

Charlie nasceu por volta de 1838, ninguém sabe exatamente onde — o que já é um excelente começo para qualquer personagem de faroeste digno. O que se sabe é que ele surgiu no cenário do Velho Oeste com estilo. Literalmente. Usava roupas com franjas impecáveis, botas lustrosas, bigode e cabelo cuidadosamente modelados. Em tempos de poeira, pólvora e peste bubônica, Utter parecia saído de um salão parisiense. Um dândi em meio aos foras da lei.

Mas o estilo era só a embalagem: Charlie era também leal até o osso. Tornou-se conhecido por sua amizade com James Butler Hickok, o famoso Wild Bill. E aí vem o momento de virada dramática: quando Hickok foi morto covardemente pelas costas — como quase todo mundo era morto no Velho Oeste, aliás — por Jack McCall em Deadwood, foi Charlie Utter quem cuidou do corpo, do enterro, das flores e da lápide. Sim, ele não era apenas amigo de farra: era o tipo de amigo que segura a barra literalmente até o caixão.

Charlie Utter - WikipediaE antes disso? Bem, Charlie era o responsável por uma das coisas mais raras no Oeste: organização. Ele criou caravanas para levar correio, medicamentos, alimentos e outros produtos essenciais (e alguns não tão essenciais, como charutos finos e uísque) até os campos de mineração mais remotos. Era como um Amazon Prime de mulas e carroças.

Mas não se engane: Charlie não era um simples entregador. Era um homem de negócios, um “logístico do caos”, alguém que entendeu que onde há ouro, há necessidade. E onde há necessidade, há lucro. E onde há lucro, claro, há violência — então ele andava armado, sempre alerta, e sabia se defender. Era respeitado por mineradores, pistoleiros e até prostitutas, que viam nele uma figura protetora.

E se você viu a série Deadwood, da HBO, talvez tenha achado o Charlie de lá exagerado, quase caricatural. Pois saiba: a vida real foi ainda mais colorida. Em seus últimos anos, Charlie viveu no Colorado e no México, ainda explorando, negociando e tentando manter um pouco de civilização nas bordas do deserto.

Diferente de tantos personagens do Velho Oeste que morreram em tiroteios ou forca, Charlie teve um fim menos trágico e mais poético: faleceu por causas naturais por volta de 1915, um verdadeiro sobrevivente de uma era onde viver mais de 40 anos já era quase um milagre.

Charlie Utter é, enfim, um daqueles personagens que confirmam a máxima: a História é escrita pelos pistoleiros, mas vivida pelos coadjuvantes. E se o Oeste foi selvagem, ao menos teve seus cavalheiros — de franjas, bigode encerado e coração de ouro.

Referências Bibliográficas:

  • Jeff Guinn. The Last Gunfight: The Real Story of the Shootout at the O.K. Corral. Simon & Schuster, 2011.

  • Richard E. Meyer. Deadwood Dick: A Memoir of Charlie Utter. South Dakota Historical Society Press, 2010.

  • David Milch. Deadwood: Stories of the Black Hills. HBO Archives, 2004.

  • Paul Trachtman. The Old West: The Gunfighters. Time-Life Books, 1974.

  • Dee Brown. The American West. Simon & Schuster, 1994.