Poucos personagens históricos combinam melhor tragédia, farsa e grandiosidade do que Antonio López de Santa Anna. Herói da independência mexicana, déspota reincidente, violinista de salão e mestre da autopromoção, ele foi o arqui-inimigo do Texas, a figura cuja imagem ainda arde no imaginário americano como o vilão da Batalha do Álamo.
Mas Santa Anna foi muito mais que isso. Foi um homem que subiu e caiu do poder nove vezes, que perdeu metade do território nacional, que organizou funerais de Estado para sua própria perna amputada — e que, mesmo assim, acreditava piamente ser o salvador do México.
Ele era, nas palavras de muitos historiadores, “o Napoleão do Oeste”. Um apelido que ele próprio incentivava — mas que talvez devesse vir com um asterisco.
Um Herói da Independência
Santa Anna nasceu em 1794 em Veracruz, em uma família modesta. Como tantos de sua geração, viu no exército o caminho para ascensão. Lutou, inicialmente, pelos espanhóis, mas rapidamente mudou de lado e tornou-se um dos líderes da luta pela independência mexicana.
Com charme, ambição e uma certa teatralidade natural, Santa Anna se destacou como homem forte da jovem república. Em 1829, repeliu uma tentativa espanhola de reconquista e foi aclamado herói nacional. A partir daí, tornou-se presença constante — e incômoda — na política mexicana.
Mas seu governo era instável, autoritário e personalista. Quando não estava no poder, conspirava para voltar. E quando voltava, traía aliados com a mesma facilidade com que trocava de uniforme.
A Perda do Texas
Nos anos 1830, o México enfrentava revoltas internas em várias províncias. A mais problemática era o Texas, onde colonos americanos — como Sam Houston e Stephen F. Austin — exigiam autonomia, e depois, independência.
Santa Anna, então presidente e autoproclamado ditador, marchou pessoalmente ao norte, decidido a esmagar os rebeldes. E o fez com brutalidade. Em março de 1836, capturou o Álamo, em San Antonio, e ordenou a execução de todos os defensores. Tornou-se, ali, o vilão definitivo para a imaginação americana.
Mas sua vitória foi efêmera. Pouco depois, foi surpreendido por Sam Houston às margens do rio San Jacinto. A batalha durou apenas 18 minutos. Santa Anna foi capturado no dia seguinte — vestido de soldado raso, tentando escapar.
Em troca da vida, assinou o reconhecimento da independência do Texas. Foi levado de volta ao México como prisioneiro desonrado, humilhado por sua derrota.
A Perna Perdida e os Muitos Retornos
Mas Santa Anna era resiliente. Em 1838, durante um confronto com forças francesas — a Guerra dos Bolos, como ficou conhecida — perdeu uma perna em combate. Fez da amputação um espetáculo: organizou um enterro oficial com salva de tiros e missa. Sua perna virou relíquia.
Ele mesmo voltou ao poder em 1841. E novamente em 1843. E em 1844. Cada retorno mais dramático que o anterior.
Durante a Guerra México-Estados Unidos (1846–1848), reapareceu como comandante supremo. Lutou bravamente, mas sem sucesso. Foi derrotado por Zachary Taylor em Buena Vista, e depois por Winfield Scott na épica marcha até a Cidade do México.
O México perdeu quase metade de seu território. Santa Anna perdeu novamente o poder. E, como sempre, voltou pouco depois.
Exílio, Chicletes e os Últimos Atos
Em 1855, foi finalmente derrubado e exilado — desta vez, aparentemente para sempre. Viveu em Cuba, na Jamaica, na Colômbia, e até nos Estados Unidos. Em Nova York, tentou vender uma novidade chamada “chicle” para fabricantes de borracha. Eles não se interessaram. Mas um tal de Thomas Adams aproveitou a dica. Nasceu ali a indústria dos chicletes — e Santa Anna, ironicamente, ajudou a lançar a goma de mascar nos EUA.
Nos últimos anos de vida, tentou convencer Benito Juárez a deixá-lo voltar. Finalmente foi autorizado em 1874, já velho e cego. Morreu dois anos depois, em 1876, convencido de que a história o absolveria.
Um Homem Maior que o México?
Santa Anna foi muitas coisas: general, presidente, caudilho, vendedor de chicletes, mártir de sua própria vaidade. Mas sobretudo, foi o espelho de um México turbulento, que oscilava entre o sonho de modernidade e os abismos do personalismo.
No estilo de Paul Andrew Hutton, sua história nos lembra que os vilões da história, muitas vezes, são heróis frustrados — e que o destino de uma nação pode girar ao redor de figuras tão contraditórias quanto fascinantes.
Santa Anna perdeu o Texas. Perdeu a perna. Perdeu a guerra. Mas nunca perdeu o palco. E talvez, no fim das contas, era isso que mais importava para ele.