Leitura de História

O Morro dos Ventos Uivantes: amor, violência e desconcerto

Poucos romances da literatura ocidental conseguiram provocar tamanho desconcerto moral quanto O Morro dos Ventos Uivantes. Desde sua publicação, em 1847, a única obra romanesca de Emily Brontë parece ter sido escrita para incomodar. Não para consolar. Não para educar. Muito menos para oferecer lições edificantes. Trata-se de um livro que se recusa a explicar-se plenamente, que desafia o leitor a atravessar suas páginas sem a segurança de uma moral clara. Talvez por isso, desde o século XIX, ele fascine leitores e, ao mesmo tempo, desoriente críticos.

Publicado sob o pseudônimo masculino “Ellis Bell”, o romance recebeu críticas profundamente divididas. Alguns leitores vitorianos ficaram horrorizados com aquilo que chamaram de “crueldade brutal” e de um amor “semi-selvagem”, quase animalesco. Outros, em contraste, reconheceram no texto uma força incomum, uma inteligência rara e um delineamento psicológico que parecia escapar aos moldes tradicionais do romance moralizante da época. Para muitos, no entanto, O Morro dos Ventos Uivantes era simplesmente estranho — e, no século XIX, estranheza era sinônimo de perigo.

Convém lembrar que a Inglaterra vitoriana era uma sociedade obcecada por códigos morais, hierarquias sociais e pedagogias do comportamento. Nesse contexto, um livro que se recusava a punir seus personagens de forma exemplar, ou a recompensá-los por boas ações, soava quase subversivo. Como observa a pesquisadora Clare O’Callaghan, da Universidade de Loughborough, o romance confundia porque não oferecia um “ângulo moral claro”. O leitor não sabia o que fazer com aquela história — e, talvez, ainda não saiba.

Três anos após a publicação, Charlotte Brontë revelou que o autor misterioso era, na verdade, sua irmã Emily. Ao defender o romance, Charlotte foi incisiva: os críticos haviam falhado em reconhecer os “poderes imaturos, mas reais” revelados em O Morro dos Ventos Uivantes. Não compreenderam sua natureza nem sua importância. A história deu razão a Charlotte. Hoje, o romance é considerado uma das obras fundadoras da literatura gótica moderna — ainda que continue sendo, paradoxalmente, um livro difícil de classificar.

Ambientado nas charnecas áridas de Yorkshire, o romance narra a trajetória de duas famílias — os Earnshaw e os Linton — entrelaçadas por amor, ressentimento, violência e herança. Contudo, desde o início, Brontë subverte expectativas. Não se trata de uma narrativa linear, nem de um relato confiável. O leitor é conduzido por dois narradores profundamente problemáticos: Lockwood, um cavalheiro urbano cheio de preconceitos, e Nelly Dean, a governanta que parece saber de tudo, mas cuja memória seletiva e julgamentos morais interferem continuamente na narrativa.

Esse jogo de vozes cria uma história dentro da história, um passado reconstruído por filtros, silêncios e distorções. Nada é plenamente objetivo. Tudo é mediado. Essa estrutura fragmentada antecipa técnicas narrativas que só se tornariam comuns no século XX, o que torna ainda mais notável o experimentalismo de Emily Brontë.

Recentemente, a diretora Emerald Fennell anunciou sua própria versão cinematográfica do romance, deixando claro que não se trata de uma adaptação literal, mas de uma interpretação. A justificativa é reveladora: a história seria “densa, complicada e difícil”. De fato, é. Mas talvez essa dificuldade seja justamente o seu maior mérito. O Morro dos Ventos Uivantes não é um romance que se oferece docilmente ao leitor; ele exige enfrentamento.

Embora campanhas publicitárias insistam em chamá-lo de “a maior história de amor de todos os tempos”, essa definição é, no mínimo, incompleta. O livro é, com igual intensidade, uma história de vingança. Amor e destruição caminham lado a lado, inseparáveis. Heathcliff não é um herói romântico, mas um anti-herói dilacerado, cuja dor se transforma em crueldade. Catherine, por sua vez, está longe de ser uma figura idealizada: é impulsiva, orgulhosa, teatral e, muitas vezes, profundamente egoísta.

O célebre trecho em que Catherine afirma que ela e Heathcliff são feitos da mesma substância espiritual costuma ser citado isoladamente, como se fosse prova de um amor absoluto. No entanto, quando lido no conjunto da obra, esse amor revela-se incapaz de gerar cuidado, apenas dependência e destruição. A união simbólica entre os dois não salva ninguém — ao contrário, condena gerações.

A estrutura em dois volumes reforça esse ciclo. No primeiro, acompanhamos a formação do vínculo entre Catherine e Heathcliff, marcada por exclusão social, humilhação e ressentimento. Heathcliff, um órfão de origem obscura, é constantemente animalizado, tratado como “sujo” e inferior. Seu sofrimento desperta, inicialmente, a empatia do leitor. Contudo, no segundo volume, Brontë desmonta essa empatia ao expor a lógica fria e calculista da vingança de Heathcliff, que se estende não apenas aos seus inimigos diretos, mas também às crianças inocentes da geração seguinte.

Ele transforma Hareton, filho de Hindley, em uma réplica degradada de si mesmo. Sequestra Cathy Linton e a força a um casamento estratégico. Abusa física e psicologicamente de Isabella. Cada ato é pensado para perpetuar a dor. A vingança, aqui, não é catártica; é metódica. E justamente por isso, profundamente perturbadora.

Muitas adaptações audiovisuais optaram por encerrar a narrativa com a morte de Catherine, como se ali estivesse o clímax emocional suficiente. No entanto, ao fazer isso, perdem o cerne do romance. O verdadeiro escândalo moral de O Morro dos Ventos Uivantes está no que vem depois: um mundo governado por um homem que sofreu demais — e decidiu fazer todos sofrerem ainda mais.

Ao se recusar a punir Heathcliff de maneira exemplar, Emily Brontë não absolve seu personagem, mas transfere a responsabilidade do julgamento ao leitor. O romance não responde perguntas; ele as formula. O que é o amor quando desprovido de limites éticos? O casamento é um sistema de proteção ou de opressão? Até onde a violência pode ser naturalizada como resposta à dor?

Talvez por isso o livro ainda choque. A cultura popular insiste em romantizá-lo, mas a leitura atenta revela um texto desconfortável, às vezes cruel, frequentemente irônico. Há humor, sim — nas fofocas de Nelly, no cinismo de Joseph, na petulância do jovem Linton Heathcliff. Há exagero, teatralidade, quase uma paródia gótica em certos momentos. Levar o romance excessivamente a sério pode ser, paradoxalmente, uma forma de não compreendê-lo.

Emily Brontë morreu jovem, sem jamais testemunhar o impacto duradouro de sua obra. Em sua mesa, hoje exposta no museu de Haworth, repousam críticas majoritariamente negativas. Ainda assim, O Morro dos Ventos Uivantes sobreviveu. Não por ser confortável, mas por ser inesgotável. Cada geração retorna a ele com novas perguntas — e sai, invariavelmente, sem respostas fáceis.

Talvez seja isso que define um clássico. Como escreveu um crítico anônimo em 1848, é impossível começar o livro e não terminá-lo. E igualmente impossível terminá-lo sem dizer algo sobre ele. Mesmo que esse algo seja apenas perplexidade.