Se Jesse James era o “Rei dos Fora da Lei”, então Thomas Coleman Younger, o famoso Cole Younger, era seu príncipe herdeiro — ou, dependendo da versão, seu fiel escudeiro, braço direito, conselheiro de guerra e, claro, comparsa de crimes do mais alto gabarito. Nascido no Missouri em 1844, Cole já veio ao mundo num lugar onde a política era feita na base da espingarda, e onde a Guerra Civil não foi apenas entre Norte e Sul, mas entre irmãos, vizinhos e frequentadores do mesmo saloon.
Antes de se tornar uma lenda do crime, Cole era apenas mais um jovem confederado, cheio de testosterona, honra sulista e ódio no coração. Lutou pela causa dos confederados (porque liberdade, para ele, era ter escravos e não pagar impostos), e quando a guerra acabou — como acaba toda festa onde a conta chega —, ele simplesmente se recusou a parar. Como muitos sulistas ressentidos, Cole decidiu continuar lutando por meio de assaltos a bancos, trens e diligências. Em vez de uniforme, passou a usar lenço no rosto. E aí nasceu a famosa James-Younger Gang, um clube de leitura muito peculiar onde o único livro permitido era o de registro dos bancos roubados.
A gangue era eficiente, ousada e, vá lá, estilosa. Chegavam de surpresa, rendiam tudo e todos, e desapareciam no horizonte poeirento do Missouri. Durante a década de 1870, o bando se tornou sinônimo de terror bancário — e também de folclore. Sim, porque o Velho Oeste adorava um fora da lei com cara de galã e discurso rebelde. E Cole Younger era exatamente isso: um sujeito que roubava com classe e ainda dava entrevistas (quando não estava fugindo da lei).
O auge (ou fundo do poço, depende do ponto de vista) foi o assalto a banco em Northfield, Minnesota, em 1876. A ideia era simples: invadir o First National Bank, meter a mão na grana e sair como se nada tivesse acontecido. Mas a cidade não colaborou com o roteiro. Civis armados revidaram, o tiroteio virou carnificina, vários membros da gangue morreram, Jesse e Frank James conseguiram escapar, mas Cole e seus irmãos — Jim e Bob — acabaram capturados. Fim da aventura? Mais ou menos.
Condenado à prisão perpétua, Cole passou 25 anos no xilindró. E aí vem a parte Peninha, ou seja, o que mais espanta: ele saiu da cadeia como um novo homem. Literalmente. Abandonou a vida de crime, virou palestrante, escreveu memórias (The Story of Cole Younger by Himself, 1903), e passou a andar com a Bíblia embaixo do braço — o mesmo braço que outrora empunhava um Colt .45 com muita destreza. Tornou-se uma espécie de celebridade moralista, dando entrevistas sobre os perigos do crime e os caminhos da redenção. Era tipo um coach do pós-faroeste, uma espécie de Augusto Cury com cicatrizes de bala.
Cole morreu em 1916, velho, cansado e, pasmem, respeitado. Os Estados Unidos adoram perdoar seus bandidos — desde que eles envelheçam, peçam desculpas e virem personagens de vaudeville. Cole Younger, de fora da lei procurado, virou atração de palco, autor de livro e exemplo de superação. Uma jornada completa, quase bíblica, de crime, punição e redenção.
E aí está o paradoxo que faz dele um personagem tão fascinante quanto indigesto: ele era um assassino, um saqueador, um bandido que destruiu vidas e cidades — e mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, virou uma espécie de ícone popular. O Velho Oeste era assim: um lugar onde a moral era volátil, a justiça era uma caricatura e a fama perdoava qualquer pecado, desde que houvesse uma boa história por trás. E Cole Younger, sejamos francos, tinha muitas.
Referências Bibliográficas:
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Younger, Cole. The Story of Cole Younger by Himself. 1903.
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Stiles, T.J. Jesse James: Last Rebel of the Civil War. Vintage, 2003.
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Settle, William A. Jr. Jesse James Was His Name. University of Nebraska Press, 1966.
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Yeatman, Ted P. Frank and Jesse James: The Story Behind the Legend. Cumberland House, 2001.
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Koblas, John. The Jesse James Northfield Raid: Confessions of the Ninth Man. North Star Press, 1999.