Leitura de História

Johnny Ringo: o pistoleiro erudito que morreu só

 

Se o Velho Oeste fosse uma mistura de Shakespeare com tarântulas, whisky barato e duelo ao meio-dia, Johnny Ringo seria o Hamlet de chapéu e Colt .45. Aquele sujeito que cita poesia antes de puxar o gatilho, filosofa sobre a existência entre um gole de bourbon e uma ameaça de morte. Um homem que parecia saído de um romance russo, mas que terminou com a cabeça estourada embaixo de uma árvore no Arizona. Trágico? Totalmente. Romântico? Com certeza. Herói ou vilão? Depende da versão. Johnny Ringo é um enigma envolto em pólvora.

Nascido em 1850, no Indiana — sim, aquele estado que hoje produz mais milho do que bandidos —, John Peters Ringo era de família respeitável e foi educado com certo esmero. Falava latim, lia clássicos e, segundo alguns relatos, tinha uma aura quase melancólica. Mas como todo bom personagem do faroeste, trocou o livro pelo revólver. E, como quase todos da sua laia, acabou se metendo com a turma errada — ou, dependendo da perspectiva, com a única turma possível.

WESTERN SAGA: JOHNNY RINGO, O PISTOLEIRORingo emergiu como pistoleiro na década de 1870, durante a famigerada guerra de Mason County, no Texas, onde já começou a demonstrar seu talento para estar sempre no meio de confusões letais. Ele foi preso, libertado, preso de novo — uma espécie de ciclo de violência judicialmente autorizada, típico da época. Mas foi no Arizona que seu nome se tornou, digamos, pop.

Associado aos Clanton e McLaury — aqueles mesmos que acabaram massacrados no tiroteio do OK Corral —, Johnny Ringo era o “cabeça pensante” do grupo dos cowboys fora-da-lei. Tinha pose, vocabulário e, aparentemente, um certo charme intelectual que o destacava entre os brutamontes habituais do deserto. Ele não era só mais um pistoleiro. Era um pistoleiro cult. E como todo culto no faroeste, estava fadado à incompreensão e à morte precoce.

Diferente de Billy Clanton ou Tom McLaury, Ringo sobreviveu ao OK Corral. Ele não participou diretamente do tiroteio, mas estava no coração do conflito entre os cowboys e os Earp. Ele odiava Wyatt Earp. E detestava ainda mais Doc Holliday, com quem teve confrontos verbais épicos. E é aqui que Hollywood entra com os dois pés, transformando esses bate-bocas em diálogos brilhantes nos filmes, especialmente no já clássico Tombstone (1993), onde Ringo foi interpretado por Michael Biehn — e se tornou quase um anti-herói trágico, citando a Bíblia em latim antes de morrer.

Mas o fim de Johnny Ringo não teve duelo cinematográfico. Não teve música de Ennio Morricone. Em julho de 1882, seu corpo foi encontrado debaixo de uma árvore perto de Chiricahua Peak, com um buraco na cabeça. Oficialmente, foi suicídio. Extraoficialmente? A teoria mais popular é que foi executado por Wyatt Earp ou, mais plausivelmente, por Doc Holliday, numa vingança fora dos registros. Há quem diga até que ele foi morto por seus próprios aliados. O mistério persiste. E a lenda, como sempre, se agiganta onde faltam provas.

O que se sabe é que ele morreu sozinho, com a arma ainda na mão, e os bolsos cheios de livros. Sim, livros. Ringo carregava poesia — de fato e de espírito. É como se Byron tivesse encarnado no deserto. Um pistoleiro que não cabia nos moldes simplistas da lenda americana. E talvez por isso mesmo ele tenha sido engolido por ela.

Enquanto Wyatt Earp virou xerife eterno, Doc Holliday virou lenda pop e os Clanton entraram na galeria dos derrotados épicos, Johnny Ringo ficou num limbo entre o mito e a sombra. Ele é o anti-Wyatt. O homem que talvez quisesse sair da vida bandida, mas foi puxado de volta por suas escolhas — e por suas leituras.

Hoje, seu túmulo improvisado em West Turkey Creek, no Arizona, atrai curiosos, poetas amadores e caçadores de mistérios. Todos tentando entender como um homem tão culto foi parar tão fundo no pântano moral do faroeste. Mas a resposta talvez esteja na própria essência de Ringo: ele era, acima de tudo, contraditório. E no faroeste, onde a bala é argumento final, isso era perigoso demais.

Referências Bibliográficas:

  • Marks, Paula Mitchell. And Die in the West: The Story of the O.K. Corral Gunfight. University of Oklahoma Press, 1990.

  • Tefertiller, Casey. Wyatt Earp: The Life Behind the Legend. Wiley, 1999.

  • Ball, Larry D. Tomstone: A History. University of New Mexico Press, 2004.

  • Wellman, Paul I. A Dynasty of Western Outlaws. University of Nebraska Press, 1986.

  • Johnson, Clay. Johnny Ringo: The Gunfighter Who Never Was. Arizona Historical Review, 201