A história, insistia Marc Bloch, é a ciência dos homens no tempo. E, como tal, revela não apenas os acontecimentos, mas também os silêncios, as construções simbólicas e as conveniências que moldam identidades coletivas. No Brasil do século 19, entre revoltas provinciais, disputas econômicas e profundas tensões étnicas e sociais, poucas cenas condensam tão bem essa dinâmica quanto o Massacre dos Porongos, episódio sombrio da já complexa Revolução Farroupilha.
Com efeito, ao revisitarmos aquele 14 de novembro de 1844, percebemos que Porongos é menos um ponto isolado e mais um espelho perturbador de um país que, mesmo em guerra, preservava sua dependência estrutural da escravidão. Se a Revolução Farroupilha costuma ser celebrada como epopeia republicana e símbolo de bravura regional, o Massacre dos Porongos revela uma face frequentemente omitida: a traição, o silêncio e o descarte de centenas de homens negros que lutaram por uma liberdade que jamais veio.
Assim, compreender Porongos é compreender também como o Brasil escolhe lembrar — e, principalmente, esquecer.
Entre ideais e interesses: a guerra mais longa do Brasil
A Revolução Farroupilha (1835–1845) foi, por sua duração e intensidade, a mais longa guerra civil brasileira. Travada no extremo sul do país, opôs o governo imperial à elite estancieira gaúcha, descontente com os altos impostos sobre o charque local e com a falta de autonomia política da região.
No entanto, a disputa econômica, embora real, não esgota os sentidos da guerra. Gradualmente, o movimento adquiriu traços republicanos e, como todo conflito prolongado, precisou adaptar estratégias e recrutar novos atores sociais.
A partir da autoproclamação da República Rio-Grandense, em 1836, tornou-se evidente que faltavam soldados brancos e livres para sustentar a rebelião. Assim, em uma manobra tão pragmática quanto contraditória, os líderes farroupilhas passaram a recorrer à captura de negros escravizados, prometendo-lhes alforria ao final do conflito — mas não os seus próprios cativos, e sim os dos adversários.
Como lembra o jornalista e pesquisador Juremir Machado da Silva, essa prática revelava o caráter ambíguo da revolução: “Em vez de cederem a própria mão de obra, os farroupilhas capturavam os negros dos adversários, com a promessa de alforria após a guerra.”
Nascia, assim, a figura dos lanceiros negros, homens que lutavam não pela bandeira republicana, mas pela possibilidade de romper os grilhões da escravidão.
Estima-se que, ao final da guerra, até um terço das tropas farroupilhas fosse formado por soldados negros — cerca de 10 mil homens. Sua crescente participação incomodava profundamente as forças imperiais, que reagiram com a Lei da Chibata de 1838, estabelecendo de 200 a 1000 açoites para escravos capturados combatendo pelos farrapos.
Contudo, nem a violência legalizada deteve o avanço dos lanceiros. Seu papel militar tornou-se essencial, sobretudo nas frentes mais perigosas. E é nesse contexto que se explica, tragicamente, por que passaram a ser vistos também como um problema político.
O cenário de Porongos: geografia, guerra e escuridão
A paisagem da campanha gaúcha, com suas coxilhas ondulantes, campos abertos e ventos horizontais, foi o palco de muitos combates. No alto de uma dessas elevações — o Cerro dos Porongos, no atual município de Pinheiro Machado — ocorreu um dos episódios mais brutais da guerra.
Na madrugada de 14 de novembro de 1844, lanceiros negros acampados no local foram surpreendidos por tropas imperiais. Pegos de surpresa e desarmados, não tiveram possibilidade de reação. Cerca de 100 soldados negros foram massacrados, enquanto os sobreviventes fugiram para quilombos ou cruzaram a fronteira para o Uruguai. Os capturados foram enviados ao Rio de Janeiro, onde permaneceram escravizados até 1888.
Como explicar tamanha vulnerabilidade? A resposta, infelizmente, aponta para dentro do próprio movimento farroupilha.
A suspeita de traição: Canabarro, Caxias e a política da guerra
O debate historiográfico sobre Porongos é intenso. Contudo, a maior parte das evidências disponíveis sugere que o massacre não foi um acidente militar, mas resultado de uma traição.
Segundo o historiador Jorge Euzébio Assumpção, o general farroupilha David Canabarro negociou com o então comandante imperial, Barão de Caxias, a realização de um ataque surpresa justamente no acampamento dos lanceiros. O objetivo seria solucionar um impasse político que atormentava os rebeldes: o Império aceitava discutir anistia, desde que os escravos capturados fossem devolvidos.
Ora, como explicar aos próprios lanceiros que a liberdade prometida não seria cumprida? E como justificar aos chefes farroupilhas a entrega de trabalhadores que julgavam essenciais à economia local?
A saída encontrada — ao menos segundo documentos e interpretações — foi eliminar o problema pela raiz.
Além de supostamente revelar aos imperiais a data e localização do acampamento, Canabarro ordenou o desarmamento dos negros na véspera do ataque, sob o pretexto de substituir munições antigas. Esse gesto, para muitos historiadores, selou o destino dos lanceiros.
Como sempre ocorre em episódios traumáticos, surgiram versões defensivas. Partidários de Canabarro alegam que o general não teria percebido o ataque porque estava no acampamento das vivandeiras. A explicação, contudo, pouco resiste ao conjunto de evidências e ao sentido político que o massacre assumiu.
O próprio Tristão de Alencar Araripe, escrevendo em 1881, afirmou que o ataque representou “a pá de cal” da Revolução Farroupilha, desarticulando o principal contingente militar dos rebeldes.
Quatro meses depois, em fevereiro de 1845, a guerra terminou com o chamado Tratado de Ponche Verde, assinado pelo próprio Canabarro, que confiava na “palavra sagrada” de Dom Pedro II. Os negros sobreviventes, entretanto, não receberam liberdade alguma.
Memória seletiva: entre o mito farroupilha e o silêncio sobre Porongos
Todos os anos, em setembro, o Rio Grande do Sul celebra a Semana Farroupilha, com desfiles, acampamentos, danças e rituais cívicos que exaltam a identidade regional. Todavia, como observa Assumpção, o Massacre dos Porongos permanece quase ausente dessas celebrações.
Em 2004 — mais de 150 anos após o episódio — foi inaugurado o Memorial Lanceiros Negros, um pequeno monumento que, pela própria escala, revela a timidez da memória pública dedicada ao tema.
Por que tanto silêncio?
Porque lembrar Porongos significa questionar o mito fundador do movimento farroupilha: a imagem heroica, branca e republicana que sustenta parte da identidade gaúcha contemporânea. Falar da traição é desmitificar o gauchismo, retirar-lhe a inocência épica, revelar desigualdades e tensões raciais que persistem até hoje.
Além disso, como ressalta Juremir Machado, a própria noção de que a revolução teria um caráter “abolicionista” é um equívoco. Vários negros capturados foram vendidos no Uruguai para financiar a guerra. A promessa de liberdade, portanto, foi sempre frágil, condicionada e instrumental.
Porongos e o Brasil de hoje: entre o passado e a consciência histórica
Se a história vive do passado, a memória vive do presente. A crescente atenção dedicada ao Massacre dos Porongos não nasce apenas da pesquisa acadêmica, mas também do fortalecimento do movimento negro e da consciência pública sobre o racismo estrutural.
Para Juremir Machado, Porongos é apenas “um tijolo” de uma construção maior: a exclusão sistemática do negro ao longo da história brasileira. A aprovação, em 1854, da lei que punia quem alfabetizasse pessoas negras, e a ausência de políticas de inclusão após a abolição apenas reforçam essa continuidade.
Entretanto, como lembra o autor, há sinais de mudança: maior representação na televisão, na literatura, no debate público e nas ruas, como se viu nos protestos após o assassinato de João Alberto Freitas, em 2020. Lento, mas real, o processo de enfrentamento do racismo passa também por revisitar episódios como Porongos, reconhecendo que a construção da identidade nacional exige coragem para olhar o que fomos — e o que ainda somos.
Em última análise, Porongos não é apenas um capítulo esquecido da história gaúcha, mas um espelho das permanências históricas do Brasil: pactos de silêncio, desigualdades herdadas e mitos que evitam confrontar a dor.
Lembrá-lo, portanto, não é gesto de ressentimento, mas de maturidade histórica. É reconhecer que a memória, para ser justa, não pode servir apenas aos vencedores.