Leitura de História

Robert Ford: o covarde que matou Jesse James

 

Se o Velho Oeste fosse uma tragédia shakespeariana adaptada por Quentin Tarantino, Robert Newton Ford seria o Judas Iscariotes de Colt em punho. E, convenhamos, ele meio que foi. O homem que não ficou famoso por seus próprios méritos — nem por coragem, nem por carisma, nem por habilidade com armas — mas justamente por trair e assassinar pelas costas o fora da lei mais idolatrado do Oeste: Jesse James.

Mas vamos aos fatos, antes que a lenda tome conta.

Bob Ford nasceu em 1862, no Missouri, e cresceu ouvindo as histórias dos feitos épicos (ou criminosos, depende do ponto de vista) dos irmãos James. Era fã. Um tiete. Um desses tipos que hoje tirariam selfie e pediriam autógrafo, mas que no século XIX fazia de tudo para se aproximar do ídolo. E conseguiu. Ele e seu irmão, Charles Ford, acabaram entrando para a gangue de Jesse James nos anos 1880, numa fase já decadente, quando o bando era uma sombra de seus dias de glória e o próprio Jesse andava paranoico e desconfiado até do próprio reflexo.

Robert Ford – Wikipédia, a enciclopédia livreAgora, aqui entra o ingrediente central da história: a traição.

A essa altura, o governador do Missouri, Thomas Crittenden, estava disposto a acabar com Jesse James a qualquer custo — inclusive oferecendo uma recompensa de US$ 10 mil pela cabeça do foragido. E foi aí que Bob Ford, que vivia dizendo que admirava Jesse como a um irmão, decidiu vender sua alma ao Estado.

No dia 3 de abril de 1882, em St. Joseph, Missouri, Ford atirou em Jesse James pelas costas, enquanto o bandido ajeitava um quadro na parede da própria casa. Um tiro covarde, certeiro e fatal. Jesse caiu morto, e Bob virou… não herói, mas o mais desprezado traidor da história americana. Em vez de palmas, ouviu vaias. Em vez de glória, foi chamado — e registrado nos livros — como “o pequeno covarde que matou Jesse James”.

Mas, veja bem, a ironia não para por aí.

Robert Ford tentou lucrar com sua infâmia. Montou uma peça de teatro reencenando o assassinato (interpretando ele mesmo, claro), vendia fotos autografadas e dava entrevistas como se tivesse feito um grande serviço à pátria. Mas o povo não engoliu. Nunca engoliu. A fama de traidor colou como tatuagem malfeita: permanente, feia e dolorosa.

E, como todo bom personagem do Velho Oeste, o fim de Bob também veio com pólvora. Em 1892, ele foi assassinadoa tiros por Edward O’Kelley, dentro de seu próprio bar em Creede, Colorado. O matador? Outro doido por justiça poética. E o povo, dessa vez, aplaudiu.

No fim das contas, Robert Ford virou lenda — mas da pior espécie. Uma lenda de traição, infâmia e melancolia. Um sujeito que quis ser famoso, mas foi apenas notório. Que sonhou em ser lembrado, mas só é citado com desprezo. Que matou um mito e morreu como rodapé da história.

No oeste selvagem, onde até os bandidos tinham código de honra, Ford provou que a verdadeira covardia é matar não com o revólver, mas com a hipocrisia.


 

Referências Bibliográficas:

  • Ron Hansen. The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford. Harper Perennial, 1983.

  • T.J. Stiles. Jesse James: Last Rebel of the Civil War. Vintage, 2003.

  • William A. Settle Jr. Jesse James Was His Name. University of Nebraska Press, 1966.

  • Ted P. Yeatman. Frank and Jesse James: The Story Behind the Legend. Cumberland House, 2001.

  • John Newman Edwards. Noted Guerrillas. University of Arkansas Press, 1990.