No último suspiro do século XIX, entre as brumas de um continente europeu que ainda ostentava a pompa do iluminismo tardio e as cicatrizes de um antissemitismo que insistia em sobreviver aos progressos da razão, ergue-se a figura de um homem franzino, de barbas espessas e olhar determinado. Theodor Herzl, jornalista vienense de origem judaica, não foi o primeiro a sonhar com o retorno dos judeus à Terra de Israel. Mas foi, sem dúvida, aquele que deu forma política e institucional ao que, até então, era uma nostalgia dispersa ou uma esperança religiosa escatológica.
Como todo personagem que atravessa as grades do tempo e se assenta na história como símbolo, Herzl é fruto e artífice de seu tempo. Não se compreende sua trajetória sem considerar o ambiente que o rodeava: o Império Austro-Húngaro, com sua miríade de povos e tensões; o nacionalismo europeu em efervescência; a crise da identidade judaica entre a assimilação e a tradição; e, sobretudo, o espectro sempre presente do antissemitismo.
A publicação de sua obra seminal, Der Judenstaat (O Estado Judeu), em 1896, não foi apenas um manifesto; foi um grito. Um grito que ecoava da dor coletiva de séculos de perseguição, mas também da lucidez de um observador político que percebera que o projeto de assimilação dos judeus europeus estava fracassando. Herzl não partia de uma postura religiosa — ao contrário, sua formação era laica e assimilada. No entanto, foi exatamente por estar imerso no mundo burguês vienense que ele entendeu o quão ilusória era a promessa de inclusão plena.
A centelha que acendeu seu ardor político foi, como é sabido, o Caso Dreyfus, em 1894. Ver um oficial judeu ser condenado injustamente por traição na “civilizada” França republicana e laica convenceu Herzl de que a emancipação jurídica dos judeus não implicava, necessariamente, sua aceitação social. O iluminismo prometera fraternidade, mas entregara segregação. Era, pois, hora de buscar outra solução: uma pátria para os judeus.
Não se tratava, para Herzl, de um retorno messiânico à Terra Santa, como queriam alguns movimentos religiosos. Tampouco era apenas uma repatriação cultural. Era uma proposta política moderna, nos moldes do nacionalismo europeu: uma nação precisa de um território, de uma língua, de instituições e de um povo consciente de sua identidade coletiva. O sionismo herzliano nasce, assim, como um projeto secular de engenharia nacional.
Foi com essa visão que Herzl organizou o Primeiro Congresso Sionista, em Basileia, em 1897. A reunião de representantes judeus de várias partes do mundo, especialmente da Europa Oriental, simbolizou a institucionalização do sionismo. Não era mais apenas uma ideia, mas um movimento com objetivos claros: “o estabelecimento de um lar nacional para o povo judeu na Palestina, garantido pelo direito público”. A escolha da Palestina — então parte do Império Otomano — não era apenas simbólica; era estratégica e histórica. Apesar de Herzl ter cogitado, em momentos de realpolitik, outras alternativas como Uganda, compreendia-se, no âmago do movimento, que a Palestina era o elo emocional e cultural com a ancestralidade judaica.
A figura de Herzl pode parecer paradoxal aos olhos modernos. De um lado, era um liberal burguês vienense, apaixonado pelo teatro e pelas convenções sociais da elite europeia. De outro, era um visionário que enfrentava o ceticismo de judeus assimilados, a desconfiança dos religiosos ortodoxos e a hostilidade de parte dos árabes locais, ainda que ele próprio acreditasse que judeus e árabes poderiam coexistir em paz. Sua ingenuidade diplomática, por vezes, colidiu com a realidade geopolítica. Mas sua força estava na capacidade de sonhar grande — e de transformar esse sonho em um programa político palpável.
Ao longo do século XX, o sionismo conheceria múltiplas vertentes: o sionismo trabalhista, o revisionista, o religioso, o cultural. Muitos desses desdobramentos se afastariam das ideias iniciais de Herzl, ou até as contestariam. Ainda assim, é inegável que foi ele quem forneceu o arcabouço inicial, a plataforma discursiva e institucional que permitiria, décadas depois, a fundação do Estado de Israel, em 1948, sob a liderança de David Ben-Gurion — que, não por acaso, esteve presente nos congressos sionistas organizados por Herzl.
A morte precoce de Herzl, em 1904, aos 44 anos, não lhe permitiu ver a concretização de seu projeto. Mas talvez, como todo profeta moderno, ele tenha compreendido que seu papel não era o de cruzar o Jordão, mas o de apontar o caminho. Seus restos mortais, levados a Israel em 1949 e enterrados no Monte Herzl, simbolizam a união entre utopia e realidade, entre o sonho de um jornalista vienense e a construção de um Estado moderno no coração do Oriente Médio.
Entretanto, seria reducionista tratar Herzl apenas como pai fundador de um Estado. Sua reflexão sobre a condição judaica, sua leitura da modernidade europeia e sua tentativa de conciliar identidade e cidadania o inserem no panteão dos grandes pensadores políticos de sua época. Assim como Marx diagnosticou os dilemas da desigualdade social, e Freud os da psique, Herzl expôs o impasse da minoria sem lar em um mundo de nações.
Hoje, mais de um século após sua morte, o legado de Herzl continua a provocar debates. O sionismo, em suas diferentes manifestações, tornou-se parte indissociável das tensões do Oriente Médio e do debate global sobre autodeterminação, colonialismo e direitos humanos. Muitos criticam os rumos que o projeto tomou; outros o defendem como garantia de sobrevivência de um povo que conheceu os horrores do extermínio.
Mas é justamente esse debate que atesta a vitalidade do pensamento herzliano. Ele não nos deixou respostas definitivas — deixou, sim, perguntas fundamentais: Pode um povo sem território manter sua identidade no mundo moderno? Qual o preço da utopia nacional? É possível construir um Estado étnico e democrático ao mesmo tempo?
Theodor Herzl não foi apenas um homem de seu tempo. Foi um homem à frente dele — um arquiteto de esperanças em um mundo cada vez mais cinzento. E se, como ele mesmo escreveu, “se vocês quiserem, não será um sonho”, sua vida foi a maior prova de que, às vezes, sonhar é o primeiro passo para mudar a história.