Leitura de História

Eternauta: a história silenciada de Oesterheld

Na noite de Natal de um ano sombrio, a poucos minutos de silêncio permitidos pela ausência de um capuz sufocante, um homem observava os rostos devastados ao seu redor. Estavam todos marcados, feridos, mas ainda vivos. Cumprimentou-os um a um, talvez em busca de um gesto mínimo de humanidade naquele inferno. E, com voz baixa, mas firme, entoou “Fiesta”, canção de Joan Manuel Serrat. Um último ato de dignidade e arte diante do abismo. Depois disso, ninguém mais o veria. Desapareceria como tantos outros.

Seu nome era Héctor Germán Oesterheld, e ele não era apenas mais uma vítima. Era pai, marido, pensador. Era também o autor de O Eternauta, uma das obras mais impactantes da literatura gráfica latino-americana, símbolo de resistência, metáfora de um país mergulhado em medo, repressão e luto.

Um lar interrompido

Antes de tornar-se o prisioneiro número 7.546 da Comissão Nacional de Desaparecidos da Argentina, Oesterheld foi o centro de um lar afetuoso, onde a alegria infantil das filhas Estela Inés, Diana Irene, Beatriz Marta e Marina preenchia a casa. Nascidas na década de 1950, as meninas eram, como atestam as fotografias em preto e branco ainda preservadas por Elsa, esposa de Héctor, jovens de sorrisos largos e olhos esperançosos. Era um lar como tantos outros, até ser tragado pela engrenagem implacável da ditadura militar argentina.

A repressão, iniciada formalmente em 1976 com o golpe que depôs Isabel Perón, alastrou-se como uma peste. Os militares não apenas calaram a dissidência — eles a aniquilaram. O general Ibérico Saint Jean, então governador da província de Buenos Aires, deixou clara a política de extermínio: “Primero mataremos a todos los subversivos; luego… a sus simpatizantes… y finalmente mataremos a los tímidos”. A frase, ainda hoje, gela o sangue. Era a institucionalização do terror como projeto de Estado.

Inspirados nas técnicas de tortura utilizadas pela França na Argélia, aperfeiçoadas na Escola das Américas e replicadas no Brasil da ditadura, os repressores argentinos lançaram-se sobre seu próprio povo com brutalidade. Cerca de 30 mil pessoas seriam “desaparecidas” nos chamados anos de chumbo portenhos.

As filhas desaparecem

Beatriz, a primogênita, desapareceu primeiro, em meados de 1976. Tinha apenas 19 anos. Seu corpo seria o único recuperado pela família. Em seguida, Diana — grávida de quatro meses e já mãe de Fernando, um menino pequeno — foi sequestrada junto ao companheiro Raúl, em San Miguel de Tucumán. Marina, também gestante, foi levada em novembro daquele mesmo ano. Por fim, Estela, casada e mãe de um garoto de três anos, seria arrastada para o vazio em 1977. Todas eram militantes dos Montoneros, organização guerrilheira de esquerda.

Cada desaparecimento era um pedaço arrancado do coração de Héctor. Mas nada o prepararia para o momento em que, já preso e torturado, os agentes do regime mostraram as fotos de suas filhas mortas. A dor física da prisão tornou-se insignificante diante daquela imagem. Ali, ele também morreu — ainda que seu corpo seguisse respirando.

O cárcere e o fim

Héctor esteve em diversos centros de detenção clandestina: Campo de Mayo, Vesubio, Sheraton. Locais onde o horror era meticulosamente planejado. A pele deteriorava-se, surgiam feridas no rosto e no couro cabeludo. As costas doíam — ele dormia sobre um chão de madeira, duro como a realidade que o envolvia. O homem que amava longas caminhadas, tênis e futebol, agora mal conseguia dar passos dentro de sua cela. Arrastava-se. E, mesmo assim, cantava. Até o fim, resistia.

Em 1978, acredita-se, deu seu último suspiro na cidade de Mercedes. Seu corpo nunca foi encontrado. Héctor é um entre milhares de nomes numa lista que ainda hoje clama por justiça.

O gênio das HQs

Antes de tudo isso, Oesterheld era um dos maiores nomes dos quadrinhos da América Latina. Talvez, o maior. Nascido em Buenos Aires, em 1919, filho de pai judeu alemão e mãe basca, cresceu lendo Salgari, Verne, Melville, Defoe, Stevenson. Livros que semearam nele o fascínio pela aventura e pela resistência humana.

Formado em Geologia, chegou a trabalhar na YPF em Comodoro Rivadavia, mas logo abandonaria os mapas minerais para seguir o chamado da palavra. Seu primeiro conto infantil, Truilla y Miltar, foi publicado no La Prensa quando ele tinha apenas 23 anos. Estava lançada a jornada do contador de histórias.

Escreveu mais de 150 HQs de aventura, guerra, faroeste e ficção científica. Colaborou com revistas como Más Allá, Cinemisterio, El Tony, Skorpio, Gente, Noticias, e criou, com o irmão, a mítica editora Frontera. Com ela surgiriam personagens como Sargento Kirk, Ernie Pike, Bull Rocket, Índio Suárez e Sherlock Time.

Mas foi com O Eternauta que atingiu o apogeu criativo. Publicada pela primeira vez em 1957, com desenhos de Francisco Solano López, a obra narra uma invasão alienígena à Buenos Aires — uma metáfora precisa do medo que logo se tornaria realidade no país. O herói, Juan Salvo, é um homem comum que se transforma para lutar coletivamente. “O verdadeiro herói de O Eternauta é um herói coletivo… o único herói válido é o herói em grupo”, diria Oesterheld, antecipando seu destino.

Durante os anos 1970, ele escreve uma segunda versão, mais politizada. Em 1976, clandestino, redige a continuação da saga. Era uma provocação evidente à ditadura — e uma sentença de morte.

Militância, Guevara e o fim do silêncio

 

Nos anos finais de sua vida, Oesterheld estava cada vez mais engajado politicamente. Tornou-se o responsável pela imprensa dos Montoneros. Antes, já havia escrito La vida del Che, biografia do guerrilheiro argentino, ilustrada por Alberto e Enrique Breccia — livro rapidamente censurado e retirado das livrarias. Em entrevista, afirmou: “Se me perguntassem qual é o melhor escritor argentino, eu diria o Che”.

Entre 1973 e 1974, lança outra obra de crítica contundente: América Latina: 450 años de guerra, um ataque direto ao imperialismo. Nada disso seria esquecido pelos militares. E ele seria silenciado.

Um legado ainda vivo

 

Ainda hoje, muitos brasileiros desconhecem a obra de Héctor Germán Oesterheld. Seu nome raramente aparece nos currículos escolares. E, no entanto, sua história é universal. É a história da arte diante da opressão, da palavra enfrentando a bala, da ternura combatendo o ódio.

É urgente que sua obra circule. Que seja lida. Que provoque. Que emocione. Porque, como ele mesmo disse, o verdadeiro herói é aquele que luta em grupo. E nós ainda estamos lutando para que nomes como o dele não desapareçam de novo.